O rei está nu!
Ainda sobre as consequências ou ressonâncias da leitura d’O seminário livro 7 - A ética da psicanálise, esbarrei na noção de dizer que “o rei está nu”, a partir de uma experiência que leve em conta a tríade lacaniana — real, simbólico e imaginário —, é dizer que o rei está vestido de rei, sem perceber.
Daí a possibilidade de dizer que a realidade do neurótico é a sua fantasia. E, mais do que isso, que se ele acredita que essa fantasia equivale a si mesmo, à sua natureza, ao seu “ser”, ele está nu.
Que os homens estão nus quando recolhem as insígnias e significações que encontram nos ideais que permeiam uma determinada cultura, tempo, classe ou contexto, e se identificam a elas de um jeito tão enrijecido que não percebem que se trata de uma roupagem, de uma vestimenta, no limite, de uma fantasia.
Isto é, de um jeito de dizer da realidade sem se dar conta de que, antes mesmo de as palavras recobrirem as coisas (porque elas fazem isso para todos), algo do contato com a linguagem — com o que há de mais material na linguagem —, algo da especificidade do fazer-se humano, cava o sulco no qual essas mesmas palavras se depositam, se aglomeram e depois escorrem juntas pelas trilhas que essas primeiras satisfações vieram a produzir.
Dizer que ser homem é ser isso ou aquilo e acreditar que isso é “natural” do homem, que é “coisa de homem”, é estar nu. Ou seja, vestido com essa roupagem que a linguagem permite, sem se dar conta de que ela depende das significações produzidas na sociedade, e do investimento particular que cada um faz nessas significações para se sentir pertencente e também protegido da angústia que é se aproximar da constatação de que o “ser” é opaco.
E tem algo de uma “realidade” compartilhada em todos os casos, de ser “reconhecido”, de forçar-se um reconhecimento dessas palavras-vestimentas, por convenção, por coerção, por… angústia.
Daí também a possibilidade de pensar que o psicanalista que está atuando com sua fantasia de psicanalista, enrijecido, sem se dar conta de que está fazendo isso, está, ele próprio, nu.
E assim, qualquer pessoa que se agarre às significações produzidas e nelas tenha investido para dar conta dessa angústia frente a opacidade, também está “nua”.
Em certa medida, somos todos reis nus.
Exceto as crianças.
E talvez, até certo ponto, os psicóticos.
Gostei desse movimento inicial de Lacan n’O seminário livro 7, de dizer da importância do real para a práxis psicanalítica, e principalmente no que isso tem a ver com dizer que esse “sulco” é o que sanciona a nossa práxis. Reitero que essa palavra proferida ali “sulco”, me lançou imediatamente para um texto belíssimo de mais ou menos 10 anos depois: Lituraterra, no Outros escritos.

